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Líder da Free Sofware Foundation solta o verbo
Editoria: Comunidade
25/Apr/2006 - 15:45
Sem dúvida alguma, Richard Stallman foi o centro das atenções durante o último Fórum de Software Livre. O ambiente em torno do americano foi similar ao que surgiria se Che Guevara aparecesse em uma edição do outro Fórum famoso de Porto Alegre, o Social Mundial. O frisson se explica facilmente. O criador da licença GPL (usada em 70% das soluções em código aberto) e co-desenvolvedor do GNU/Linux é o profeta do software livre, a reserva moral do movimento.

Líder da Free Sofware Foundation solta o verbo

Criticado pelos seus opositores por pregar mais do que codificar - Eric Raymond, da Open Source Initiative, principalmente - Stallman não é uma personalidade fácil. Suas opiniões são absolutas e para ele a questão é sempre preto no branco: software livre é uma questão de ética, moral e liberdade e nada mais. Em entrevista para o Baguete Diário dispara contra seus alvos habituais, como a Microsoft, as DRMs e os defensores do open source.

Baguete - O que o senhor quis dizer gritando "Libertas quae sera tamen" durante a mesa redonda da Infomidia TV com representantes da Microsoft?

Richard Stallman - Nós começamos a cantar depois de que César Brod terminou de falar, para apoiar ele. Fizemos isso por trinta segundos por que a intenção não era interromper o debate e impedir o representante da Microsoft de falar, mas para mostrar apoio a Brod. Acho que nós conseguimos e encorajamos Brod a falar sobre o que nós estávamos dizendo, a lembrar às pessoas que o assunto principal aqui é a liberdade. Todo o resto são detalhes, que mostram o que acontece quando você tem liberdade e o que acontece quando você não tem. A Microsoft faz software proprietário desenhado para negar a liberdade ao usuário. Software proprietário mantém os usuários divididos e desamparados. Divididos porque eles estão proibidos de compartir e desamparados porque eles não têm o código fonte e não podem controlar o que o software faz. Além disso, a MS é uma grande expert em como fazer as coisas ficarem ainda piores, abusando desse poder. Mas o ponto fundamental é que esse poder não deveria existir nunca. O usuário deveria estar no controle. É uma escolha entre democracia e monarquia. O desenvolvedor de um software proprietário é como um rei absolutista, como Bush quer ser. O presidente George W. Bush trabalha para as grandes multinacionais. A grande semelhança dele com a Microsoft é que ambos não acreditam que você deva ter liberdade.

Baguete - Como o senhor vê a participação da Microsoft do LinuxWorld e sua intenção de se aproximar da comunidade de software livre?

Richard Stallman - Isso é ridículo. Eles podem querer trabalhar conosco, mas não de uma maneira que promova nossa liberdade. Isso significa que qualquer coisa que eles queiram fazer é algo que provavelmente nós não devamos fazer. É óbvio que eles querem nos distrair do fato de que todo seu software é baseado na negação dos direitos dos usuários. Veja que eles nunca falam de software livre, eles falam sobre open source. Há uma razão para isso. A maioria dos softwares referido como open source na verdade é livre. Mas eles não falam sobre liberdade porque escolheram evitar as questões de fundo, as questões sociais, e focar somente nos benefícios práticos. Então eles dizem: olhem para esse sistema poderoso, confiável e conveniente, que você pode rodar por um preço barato. E a Microsoft contesta: nosso sistema é mais poderoso, confiável e conveniente, além de mais barato. Isso não é verdade, mas de todas maneiras ambos ignoram o ponto mais importante: a liberdade do usuário. O pessoal do open source apela aos mesmos valores que a Microsoft. O desacordo entre eles é que software serve melhor a esses valores. No movimento do software livre nós valorizamos algo que a Microsoft não pode nem pensar, que é a liberdade para ter uma comunidade, na qual os usuários podem controlar seus próprios computadores e colaborar entre si para fazê-lo.

Baguete - E quanto à questão da interoperabilidade entre os sistemas livres e proprietários?

Richard Stallman - Se você pensa que a questão é fazer software funcionar bem, a aproximação da Microsoft pode parecer lógica, apropriada e mesmo desejável. Se você concorda com isso, seu foco será cada vez mais fazer diferentes programas funcionar bem, incluindo os softwares proprietários deles, e foca cada vez menos na liberdade. É uma maneira sutil da MS fazer com que as pessoas da nossa comunidade façam seus softwares funcionarem melhor. Enquanto isso, eles pagam grandes companhias de hardware para que nosso software não rode nas suas máquinas. Então, eles estão dizendo: coopere com nós quando isso nos ajuda, mas nós não deixaremos as pessoas colaborarem com você quando isso ajude a liberdade. A questão de fundo é que tipo de interoperabilidade nós estamos falando. Há algum benefício em que software livre rode em Windows. Mas temos que atentar que nosso objetivo é que as pessoas parem de usar Windows, parem de usar OS/2, parem de usar Unix. Eles não são sistemas livres e as pessoas não deveriam usar eles. Porque não existe interoperabilidade com os softwares da MS? Porque eles deliberadamente escolheram não permiti-lo. Por exemplo: um formato standart para documentos chamado open document foi proposto e sempre que alguém grande faz menção de adota-lo, a Microsoft argumenta dizendo "isso é uma má idéia porque nossos softwares não suportam esse formato". E porque a Microsoft não apóia esse formato? Eles dizem que é muito difícil, mas isso é bullshit. A razão real, tenho certeza, é que eles não querem. Eles não querem a interoperabilidade, porque, uma vez que têm a maioria dos usuários, a situação funciona a seu favor. Se o software livre fosse maioria, nós não poderíamos impor uma situação destas, porque nós deixamos o controle com o usuário. É por isso que nosso software é ético e o deles não é.

Baguete - O representante da Microsoft afirma que deseja participar do Fisl 8.0. O senhor acha que a organização deve convida-lo?

Richard Stallman - Não. Não há razão para permitir alguém vir apoiar software proprietário em um evento que se destina a promover o software livre. Debates contra defensores do software proprietário são desnecessários. Os argumentos e valores deles são tão conhecidos por todo mundo que não é necessário ter alguém presente aqui para repeti-los. Se eu dou um discurso, estou debatendo com eles mesmo se eles não estiverem lá.

Baguete - Como o senhor avalia o uso crescente de webservices?

Richard Stallman - Webservices estão OK para consultar bases de dados remotas, mas são algo horrível se você é dependente dela. Os usuários devem ter o controle de suas aplicações e para isso elas devem estar em suas máquinas. Eu acho o webmail a coisa mais horrível já inventada e não recomendo seu uso para ninguém. Olhe o exemplo de um advogado amigo meu, nos Estados Unidos. Ele teve sua conta de email cancelada por uma grande companhia. Foi investigar porque e descobriu que a administração Bush tinha pedido para a empresa. Entre respeitar os direitos individuais e agradar a Bush, é fácil imaginar de que lado eles ficaram.

Baguete - Qual é sua opinião sobre a Open Source Initiative e a licença BSD?

Richard Stallman - Eric Raymond nunca foi um apoiador do movimento em prol do software livre. O propósito do GNU/Linux é garantir a liberdade do usuário. Raymond nunca defendeu essa meta, então é claro que ele não apóia nossos métodos. Ele já era contra GPL nos 80s. Há duas licenças BSD, então se você diz "a licença BSD", então você já está criando confusão. A licença BSD tinha um requisito muito chato sobre publicidade, que ademais a fazia incompatível com a GNU/GPL. Então, definitivamente você não deveria usá-la. A versão revisada da BSD se livrou desse requisito. É OK usar ela se você quer, mas tenha em conta que ela não defende a liberdade de todo usuários. É possível não autorizar modificações. Nós não sabemos quão grande esse perigo é. O que nós sabemos é que nunca devemos dar por certo que a liberdade está garantida.

Baguete - Você acha que deve haver exigência de diploma para profissionais de computação? Existem projetos nessa linha no Brasil...

Richard Stallman - Isso é completamente estúpido e errado. Um programador realmente bom não precisa estudar ciência da computação. Eu não estudei. Fiz uma matéria relacionada à computação quando estive no College. Era uma aula sobre escrever compilações. Você não aprende fazer bons programas numa aula, mas fazendo e lendo muitos programas.

Baguete - Porque a nova versão da GPL?

Richard Stallman - As metas e requerimentos são basicamente as mesmas, alguns detalhes foram mudados. Algumas das novidades são respostas a novas maneiras de tirar a liberdade dos usuários e outras são simplesmente esclarecimentos, que facilitam sua adoção em diferentes países. A GPL v3 será compatível com um leque maior de licenças livres, incluindo, por exemplo, a Apache. Outro benefício é a luta contra a tivolização. O TiVO contém um pequeno sistema operacional GNU/Linux, licenciado como software livre. Você pode pegar esse programa, fazer alterações, compila-lo, colocar ele no TiVO e daí... ele não vai funcionar. O equipamento é feito para impedir a rodagem de versões alteradas do sistema operacional. Isso é tivolização, uma maneira dissimulada de respeitar nominalmente as liberdades do usuário quando na prática estão negando elas a você.

Baguete - Como isso se relaciona com as DRMs (Digital Rights Management)?

Richard Stallman - Você disse Digital Rights Management? Você não deveria fazer isso. Adotando o ponto de vista do usuário seria mais adequado falar em Digital Restriction Management. Se você diz a primeira, está tomando o lado de Hollywood e das grandes gravadoras e se diz a segunda, está ficando do lado dos usuários que estão sendo restringidos. A TiVO pode modificar nosso software da maneira como quiserem, inclusive para restringir o usuário, mas não podem impedir você de modifica-lo de novo. Você não deve sofrer com restrições se não quiser.

Baguete - Podemos esperar uma tradução oficial da GPL para português?

Richard Stallman - Eu não sei. Essa tradução é muito arriscada. Suponha que nós cometamos um engano. Isso seria muito, muito ruim. Seria muito trabalhoso, talvez mais do que escrever a versão original. Não sei se conseguiríamos.

Baguete - Qual é sua opinião sobre as licenças Creative Commons?

Richard Stallman - Algumas delas são livres, outras não mas estão OK para arte e outras são completamente inaceitáveis, nunca deveriam ser usadas. Eu não apóio nenhuma. A razão disso é que a CC organizou suas atividades de forma que tudo promova sua marca. Freqüentemente, eu escuto pessoas falarem sobre a licença CC, no singular. Eles nem sabem que existem diferentes licenças. Isso não é acidental, mas resultado do foco da CC na marca, sem encorajar as pessoas a julgar cada uma das licenças, uma por uma. Então a solução é não apoiar nenhuma licença Creative Commons em absoluto.



Fonte: Baguete
 

 

CPD-UFRGS/POP RS Pelo debate e transparencia no Projeto de Lei de CONTROLE da INTERNET

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