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Debian Women: Geeks feministas em ação
Editoria: PSL Mulheres
20/Dec/2004 - 12:42
Erinn Clark, co-fundadora do Debian Women, ressalta que o grupo não existe porque o Debian seja particularmente não amigável para as mulheres. Sim, o Debian tem “uma reputação” de ser elitista e ter discussões agressivas em suas listas. Algumas mulheres, também, encontram a necessidade de se associar no grupo masculino – necessária para se tornar um(a) desenvolvedor(a) Debian – intimidadora.

Ainda, se um dos objetivos do Debian Women é mudar o projeto Debian para incentivar a participação feminina, é igualmente importante explicar às mulheres sobre o Debian e mostrar a elas formas de contribuir.

O Debian Women iniciou depois que Erinn e Amaya Rodrigo, duas das poucas mulheres mantenedoras de pacotes, começaram a discutir como mudar a falta de mulheres no Debian. Amaya, que atualmente mantêm nove pacotes desde front-ends do GNOME para CVS, clientes SETI@home até um calendário menstrual, colocou a seguinte questão como assunto para discussão entre os candidados a Líder de Projeto do Debian (DPL), em março: Como nós dizemos fazer um S.O “Universal” quando ele está tão pouco relacionado com metade da população mundial? Eu estaria muito interessada em saber o que cada candidato planeja ou tem de idéias sobre esse assunto, como ter mais mulheres envolvidas, e quais (na opinião de vocês) seriam os benefícios.

A questão de Amaya recebeu grandes respostas dos candidatos, e iniciou uma grande, e também não concluída, discussão sobre o assunto.

Em maio, Erinn, que é comantenedora do LyX e também ativa em seu grupo de usuários de GNU/Linux e Perl, deu uma palestra sobre Mulheres no Debian na DebConf. Como Erinn preparou a palestra, ela consultou um grupo que depois se tornou o núcleo do Debian Women, incluindo Amaya, que traduziu a palestra para o espanhol e levou-a para apresentar na Espanha. Imediatamente depois, teve início a lista de discussão do Debian Women. Uma página web veio logo em seguida.

O Debian Women não é o primeiro grupo para mulheres interessadas em GNU/Linux. Erinn participa do LinuxChix, e, para ajudar a montar o Debian Women, ela pesquisou alguns outros grupos como Gnurias e KDE Women.

Todos esses grupos são similares por tentar criar uma atmosfera favorável para incentivar as mulheres a se envolverem na comunidade software livre. Entretanto, o Debian Women tem um foco específico. “Ser um(a) desenvolvedor(a) do Debian,” diz ela, “É necessário possuir conhecimento sobre uma variedade de coisas, como licenciamento, empacotamento, filosofia, e a comunidade.” A comunidade Debian tem uma grande tradição, e participar dessa comunidade sem entender essa tradição é quase impossível.

A tradição do Debian fica especialmente visível no processo de se tornar um mantenedor. Para começar o processo, o candidato deve encontrar um “advogado” que já seja um desenvolvedor, e ter sua chave GPG assinada por pelo menos um desenvolvedor, como prova da sua identidade. O trabalho do canditato nos pacotes é supervisionado por um “sponsor”, e ele precisa demonstrar conhecimento no Contrato Social do Debian e o Guia de Software Livre do Debian. O “sponsor” faz um relatório final para um comitê, que decide se o candidato se tornará um mantenedor.

Aprender a filosofia do Debian e perguntar a alguém que você nem conhece exceto via e-mail e/ou IRC para ser advogado em seu favor leva tempo e é difícil para a maioria dos homens. Todavia, para uma mulher, o processo pode ser ainda mais intimidador. Isso significa entrar nesse grande grupo de homens, muitos deles se conhecem há tempos, e ser julgada por um grupo de homens. Isso deixa a maioria das mulheres desconfortáveis.

Um dos principais objetivos do Debian Women é ajudar a mulher nesse processo dando suporte e incentivando, mas também desmistificando o processo. Por exemplo, nos últimos meses, Helen Faulkner, uma participante do Debian Women, postou sobre os avanços no processo, escrevendo o que ela está fazendo e como está se sentindo com relação a isso. Amaya Rodrigo, em seu website, incentiva as pessoas que precisam de “advogado” a contatá-la.

Ainda, o Debian Women discute como desmistificar o processo de reportar bugs – não somente explicando o processo, mas também mostrando como fazer relatórios úteis. Como os bug reports são publicamente e algumas vezes copiosamente comentados, eles são outra área em que recém-chegados que por acaso sejam mulheres se sintam facilmente suprimidas.

Outras áreas onde o Debian Women está considerando atuar incluem localização, documentação e formação para usuários. “Nós tentamos incentivar as mulheres a participar em outras areas do Debian,” diz Erinn. “Nós não queremos recriar outrar áreas do Debian através do Debian Women.”

Ao mesmo tempo, Erinn adiciona que o grupo ainda é um “espaço de teste” para disussões sobre áreas onde o Debian precisa mudar para mais mulheres se tornarem ativas no projeto. Neste campo, em agosto, Helen Faulkner postou um bug a respeito do uso de uma linguagem sexista na documentação do Debian, citando vários exemplos e mostrando como reescrever os textos.

Linguagens sexista, aponta Helen, “Pode excluir e ser potencialmente ofensiva para mulheres que, assim como eu pretendem ser desenvolvedoras do Debian, e leva as pessoas a presumir que todos os desenvolvedores e contribuidores do projeto são homens.”

A necessidade do relatório do bug não foi aceita por todos, nem na lista de discussão do Debian Women. Uma pessoa postou uma mensagem dizendo que o relatório era “paranóico”, e alguns desenvolvedores do Debian, especialmente os que têm o inglês como segunda língua, questionaram a necessidade de mudança e também se mudar o pronome “he” (ele) por “they” (eles/elas) estava gramaticamente correto. Houveram ainda muitos comentários simpatizando com a idéia, e alguns documentos foram alterados.

Opiniões Contrastantes

Alguns membros da comunidade Debian são duramente contrários às ações do Debian Women. Como acontece em listas de discussão de canais de IRC focados em mulheres, trolls são problemas ocasionais. Provavelmente, é por prever tais ações hostis que o FAQ da DW contém essa pergunta e resposta:

Porque não existe um debian-homens ou debian-$GRUPO_COM_INTERESSES_ESPECÍFICOS?

Porque não solicitaram a criação. O fato de existir o debian-women não é impeditivo para ninguém na criação de novas listas de discussão ou subprojetos.

Ainda, a respeito das reações negativas, Erinn diz, “Nós também temos um grande número de apoiadores, e também um grande grupo de pessoas que não são nem contra, nem a favor. Mesmo assim, o grupo foi melhor recebido do que eu imaginei que seria.”

Perguntei se ela prevê o dia em que um grupo como o Debian Women não for mais necessário, Erinn diz: Como o Debian Women vai se desenvolver não depende somente do DW e seus membros, e sim do crescimento e popularização do GNU/Linux e do Debian. Por enquanto ainda pode ser fácil esquecer que o Debian não está no mundo todo, ainda existem questões sociais que precisam ser corrigidas antes que o Debian Women se torne redundante. O Debian Women vai crescer e começar a atingir pequenas parcelas da sociedade, mas eu acho que ainda temos um longo período antes que aconteça em larga escala.

Enquanto isso, o Debian Women vem criando um espaço amigável para aprender mais sobre o Debian e fazendo muitas mulheres falarem sobre suas experiências e ambições, e se envolverem mais no projeto. Foi publicado recentemente, que quando o Debian Women foi criado há cinco meses atrás, haviam três Desenvolvedoras do Debian mulheres, e agora são oito mulheres no processo de New Maintainers – uma mudança que se deve em parte ao Debian Women.

Esta é uma mudança que não foi esperada pelas fundadoras. “Eu estou um pouco surpresa,” diz Erinn, que “Pelo simples fato de criarmos um grupo como esse, muitas pessoas se uniram e começaram a pensar em contribuir, coisa que elas não tinham pensado em fazer antes.”

Por: Bruce Byfield

Traduzido por: Fernanda G Weiden



Fonte: Newsforge
 

 

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