Projeto Software Livre Brasil

http://portal.softwarelivre.org/articles/54 Versão: 1.0 - 16/Dec/2002

O caso a Rede Escolar e da Uergs - Marcelo Branco

(Marcelo Branco)


Livre por que

A introdução de Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC), na rede escolar pública do RS e da UERGS, se destacou dos demais projetos educacionais brasileiros não simplesmente pela questão da opção tecnológica, mas principalmente por uma visão diferenciada que busca, através do uso das TIC , "proporcionar à comunidade escolar a possibilidade de ampliar a expressão de suas potencialidades, interagindo, criando e produzindo com as diferentes linguagens".

Educação com Liberdade

(*) Marcelo Branco

16/12/2002 Além disso, parte do princípio que educação é um direito e, portanto, nossas ações nessa área devem estar compreendidas também como políticas de inclusão social. "A utilização de computador, acesso à internet, videocassete, televisão, máquina de calcular, não é sinônimo de transformação da prática pedagógica, pois pode apenas representar a introdução ao consumo de novos recursos tecnológicos, tendo como pressuposto básico o paradigma da escola tradicional. É através da formação continuada que o educador se apropria do conhecimento das tecnologias para refletir, analisar, comparar possibilidades, atender à necessidade e ao interesse do educando. Só assim os recursos tecnológicos podem contribuir para a educação, isto é, podem identificar quando, como e porquê a tecnologia pode auxiliar na apropriação do conhecimento".

A opção pelo software livre é apenas uma conseqüência desta visão.

Pelo seu caráter solidário, por permitir abrir o conhecimento a todos os cidadãos, por poder adaptar os programas informáticos a cada necessidade - sem ter que pedir permissão a grandes empresas proprietárias das licenças -, por entender que o Rio Grande do Sul e o Brasil podem exportar tecnologia de ponta, criada por jovens formados em nossas escolas e universidades e, principamente, por coerência com a nossa proposta educacional.

Os sistemas operacionais e os aplicativos de informática que compõem a Rede Escolar Livre e a UERGS, foram desenvolvidos pela *comunidade software livre*, que tem como ética e princípio compartilhar o seu conhecimento e garantir aos usuários a liberdade de conhecer, na ítegra, o conteúdo dos códigos escritos (códigos fontes) dos programas utilizados. Além de garantir maior segurança, privacidade e redução de custos, essa opção aposta no livre desenvolvimento da ciência e da tecnologia, sem as barreiras restritivas das licenças secretas e proprietárias.

Rede Escolar Livre

Atualmente, mais de 40 mil alunos são beneficiados com este projeto, que já atua em 42 escolas públicas estaduais. A proposta do Rede Escola Livre é implantá-lo em duas mil escolas públicas do RS. Acredito ser o maior projeto de software livre na educação brasileira.

Além de representa para os cofres públicos uma economia de R$ 40 milhões, viabiliza o uso da informática nas escolas públicas estaduais do Rio Grande do Sul, possibilitando a inclusão dos alunos, professores, funcionários e da comunidade escolar no novo mundo que se apresenta através da Tecnologia da Informação.

Além do Governo - Procergs e Secretaria Estadual da Educação -, a implantação da Rede Escolar Livre está se viabilizando por meio de uma série de parcerias e oportunidades com a iniciativa privada. Durante o ato de lançamento do Rede Escolar Livre, a CRT Brasil Telecom firmou protocolo de intenções com o Governo do Estado para disponibilizar canal de acesso à Internet para cerca de 40 escolas integrantes do projeto. A Procergs participou com a doação de computadores, acesso à rede local e Internet. As empresas Dell Computer, Conectiva (PR) e Samurai também doaram equipamentos às escolas.

Muito mais parcerias e oportunidades de negócios para a inciativa privada poderão viabilizar-se no próximo período, como a prestação de serviços de implantação e manutenção desse grande projeto. Algumas ferramentas importantes foram desenvolvidas pela Procergs, com o apoio da comunidade software livre, principalmente do Debian www.debian.org.

Liberdade no servidor da Rede

Solução em Software Livre completa, baseada na distribuição Debian GNU/Linux, para ser instalada no servidor de cada escola. Essa etapa do projeto contou com ajuda importante da comunidade Debian www.debian.org e é composta por:

* Roteador baseado na placa Cyclades + GNU/Linux * DHCP (designa automaticamente configurações de rede para cada estação); * Postfix (agente e servidor de e-mails); * Apache + JSP+PERL+PYTHON+PHP+SLL+ (servidor de páginas web); * PostgreSQL (banco de dados relacional); * Samba (agente integrador de rede Windows e Unix); * OpenSSH (gerenciamento remoto com criptografia); * Squid (proxy server); * Bind (DNS server); * OpenLDAP (LDAP server); * GNUPG (utilitário para criptografia);

Construtor livre

O Construtor Livre é um ambiente web, desenvolvido em software livre, que auxilia educadores e estudantes na criação, publicação, catalogação e recuperação, na Internet, de seus projetos de aprendizagem.. Essa parte do projeto foi desenvolvida por André Camargo, especialista na tecnologia ZOPE www.zope.org, que mora em Canguçú - extremo sul do nosso Estado. Através desta ferramenta, os conteúdos produzidos nas escolas ficam disponíveis para estudantes, educadores e comunidade em geral, de uma forma organizada e de fácil acesso.

Site Fácil

Site Escola Fácil é uma ferramenta que permite a qualquer escola uma forma simples de criar, publicar e atualizar um site na internet. Fazendo uso de uma interface bastante simplificada, a escola disponibilizará seus dados, através do preenchimento de um conjunto padronizado de formulários. Os dados informados nestes formulários serão utilizados para a confecção de um grupo de até oito páginas que, quando publicadas, irão compor o site da escola. Nesta etapa do projeto, a tecnologia utilizada foi o Java - desenvolvido pela equipe da Divisão 5 da Procergs.

Educação sem distância

Temos hoje, disponíveis no Brasil, muitos ambientes de suporte para a criação de cursos à distância. No entanto, poucos são aqueles que foram desenvolvidos sob a ótica de software livre. A partir de um levantamento e estudos, coordenados pela professora Mara Carneiro mara@uergs.rs.gov.br, sobre os recursos disponíveis em diversos ambientes (comerciais ou desenvolvidos através de projetos de pesquisa em universidades de renome), foi selecionado aquele que mais atendia às expectativas do projeto da Rede Escolar Livre: seguir os pressupostos construtivistas e interacionistas, bem como ser desenvolvido sob a filosofia do software livre. O TelEduc http://hera.nied.unicamp.br/pagina/index2.php , amplamente utilizado pela comunidade acadêmica, é um ambiente para a criação, participação e administração de cursos na Web. Ele foi concebido visando o processo de formação de professores para informática educativa, baseado na metodologia de formação contextualizada, desenvolvida por pesquisadores do NIED (Núcleo de Informática Aplicada à Educação) da Unicamp, e contou com a coordenação técnica de Christiano Anderson anderson@debian-rs.org, no trabalho de *customização* para a REL.

Todo trabalho da REL só foi possível graças ao empenho da equipe da divisão cinco da Procergs e, principamente, pela dedicação especial do seu idealizador, o vice-presidente da Companhia, Mário Luiz Teza.

A Uergs e o Software Livre

A Uergs é uma universidade inovadora em todos os aspectos. Não poderíamos deixar de inovar nessa área tão importante do conhecimento humano.

Estamos espalhados em 22 campus, distribuídos regionalmente em todo o Rio Grande do Sul. O uso da tecnologia da informação e comunicação é fundamental para a integração de nossas unidades regionais e à diminuição das distâncias . Todas as salas de aula são dotadas de um computador para cada dois alunos, ambiente de educação à distância e vídeo-conferência.

A opção que encontramos foi de montar toda essa estrutura baseada em software livre. Fizemos tudo isso em menos de seis meses! São 750 computadores, 47 servidores de rede utilizados por funcionários, educadores e alunos, "rodando" com softwares desenvolvidos pela comunidade software livre. Não poderíamos simplesmente "alfabetizar" os alunos e professores em programas da Microsoft, como a maioria das instituições de ensino. Ensinar a utilizar o Word da MS, por exemplo, não é ensinar informática, mas sim transformar nossos alunos em consumidores de um produto de uma empresa. Temos quatro editores de texto alternativos e livres. Ensinamos o conceito do editor de texto, do editor de planilhas, de fotografia, de apresentação. Com isso, todos estão habilitados a operar qualquer software e não apenas aqueles do monopólio. É essa liberdade e pluralidade de opções que faz com que o uso da informática na educação seja mais prazeroso e criativo. Os usuários da rede de computadores não são dominados e nem ficam limitados às funcionalidades de um programa desenvolvido por determinada empresa.

Além disso, nosso sistema de gestão acadêmica, Sagu, foi desenvolvido em software livre, pela Univates (Universidade do Vale do Taquari); nosso ambiente de Educação à distância, TeleEduc, foi desenvolvido pela Unicamp (Universidade de Campinas); utilizamos nas nossas páginas o ambiente Web Zope; nosso correio eletrônico é o Direto, desenvolvido pela Procergs; nosso ambiente gráfico foi desenvolvido pela Gnome Foundation; as ferramentas de escritório pela Openoffice.org, KDE e Gnome.

O mais importante é que o sistema operacional e os aplicativos de informática que optamos foram desenvolvidos pela *comunidade software livre*, que tem como ética e princípio compartilhar o seu conhecimento e garantir aos usuários a liberdade de conhecer, na ítegra, o conteúdo dos códigos escritos (códigos fontes) dos programas utilizados. Tudo isso, sem pagarmos um alto custo econômico direto para o cidadão, em licenças desnecessárias que alimentam a lógica da dependência tecnológica.

A busca da liberdade e da autonomia, como qualquer luta, exige compreensão, dedicação, solidariedade e, nesse caso, contamos com o apoio da reitoria e de todos os funcionários e educadores.

Sabemos que, com mais esta atitude ousada e inovadora da nossa UERGS e da Rede Escolar Livre, traçamos um novo paradigma para o uso da informática à prática educativa.

Agora, abrem-se novas e fantásticas possibilidades de aproveitamento e ampliação dessas experiências no cenário nacional, com o novo governo que toma posse em 2003.

Um outro mundo é possível. Começamos a dar exemplo.


        
Palavras Chave: rede escolar, uergs,

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